CCR quer investir em novos projetos de infraestrutura

Por Rita Azevedo | Valor

SÃO PAULO  –  (Atualizada às 15h03) – O diretor-presidente da CCR, Leonardo Vianna, disse nesta segunda-feira que “está na hora” da empresa buscar novos investimentos. Citando o índice de alavancagem atual, de 2,7 vezes, Vianna destacou o “espaço de alavancagem” de R$ 5 bilhões que a empresa deve aproveitar em novas oportunidades de negócio.

“Esse valor seria mais do que o suficiente para participar de projetos que atualmente estão sendo ofertados”, disse Vianna em evento para investidores e analistas, em São Paulo. Segundo o presidente, a maior oportunidade da companhia está no desenvolvimento de negócios dentro dos contratos atuais. “Temos mais de R$ 3,6 bi em investimentos projetados para contratos existentes em SP”, disse ele. Mais cedo, o governador de São Paulo, João Doria, disse que pretende renovar concessões rodoviárias.

Fora as rodovias paulistas, a empresa também mapeia oportunidades rodoviárias em Goiás, Rio Grande do Sul e Minas Gerais. No âmbito federal, a companhia estuda a licitação de 11 novas concessões de rodovias até 2021. A partir de 2022, a expectativa é de dez novas concessões. Em mobilidade urbana, Vianna citou como oportunidades a concessão de linhas da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) e de trens intercidades em São Paulo.

Especificamente sobre aeroportos, a companhia acompanha a relicitação de Viracopos, em Campinas (SP), e a construção de um novo aeroporto no Estado de São Paulo. A empresa também analisa a participação na sexta rodada de concessão de aeroportos, que deve ocorrer em setembro de 2020.

No exterior, a empresa aposta na concessão do metrô de Bogotá, na Colômbia. “A CCR está habilitada para a fase de licitação com outros cinco grupos”, destacou o presidente. Em aeroportos, há oportunidades de investimentos para o aumento de capacidade do aeroporto Juan Santamaría, na Costa Rica, e da extensão do contrato do aeroporto de Curaçao.

Governança corporativa

O maior grupo de infraestrutura do país também pretende reformar sua estrutura de governança corporativa. Em 18 meses, a companhia espera apresentar ao conselho de administração uma proposta de revisão dos instrumentos de governança e controle, disse Pedro Sutter, vice-presidente de compliance da companhia.

Sutter não citou diretamente as investigações que a empresa enfrentou nos últimos meses, mas defendeu mudanças no modelo de governança — há tempos apontado como referência para o mercado. “Nós não vamos descansar enquanto a governança não for estruturada para lidar com novos desafios”, disse Sutter.

A revisão será baseada em 12 frentes. Serão analisadas, por exemplo, as ferramentas de controle, as políticas de transação, o regulamento dos conselhos, a política de sucessão e a de remuneração dos executivos. Fora isso, a CCR quer revisar seu código de ética e conduta, para simplificá-lo e criar uma “política de consequências”. “É importante saber quais são as consequências para a não conformidade dentro da empresa”, disse Sutter.

Um dos pilares da nova estrutura de governança, segundo o vice-presidente, será o exemplo da alta administração. “É o apoio das lideranças, o compromisso de fazer a coisa certa custe o que custar”, disse ele.

O envolvimento de executivos da companhia em malfeitos, inclusive o ex-diretor-presidente, Renato Vale, culminaram na assinatura de um acordo de autocomposição da companhia em São Paulo e no de leniência no Paraná. Segundo Leonardo Vianna, que assumiu a presidência após a saída de Vale, a revisão faz parte de um “processo de aprimoramento”. “Sempre fomos destaque em governança e queremos aprimoramento contínuo”, disse Vianna.

Segundo Sebastião Tojal e Marcelo Trindade, advogados da empresa, a CCR tem plano de pagar R$ 71 milhões a 15 ex-executivos envolvidos em malfeitos, um fator importante para a continuidade dos negócios da companhia.

Quando o conselho de administração aprovou o chamado programa de incentivo à colaboração, houve uma troca do “risco de quebra de companhia pela continuidade dos negócios”, disse Trindade, citando um cenário de incerteza financeira caso o programa não fosse criado e os acordos com a Justiça demorassem mais tempo para serem firmados.

“Quando se faz um acordo como esse, a companhia sabe quanto terá que gastar”, completou Tojal. A proposta será votada em assembleia no dia 22 de abril. Repetindo o que ocorreu na teleconferência realizada após a divulgação dos resultados do quarto trimestre, analistas de bancos voltaram sua atenção para o plano, que inclui ainda o custeio de advogados e o compromisso da empresa não abrir processos contra os ex-executivos.

Segundo os advogados da CCR, os crimes praticados pelos ex-executivos já estariam prescritos, o que justifica a necessidade de incentivos financeiros à colaboração. “Precisávamos convencer as pessoas a se oferecerem na colaboração”, disse Trindade. “Apenas essas pessoas sabiam, por exemplo, qual era a finalidade dos atos. Não havia uma forma de registro, um documento, que permitisse à companhia saber tais infomações, essenciais para o Ministério Público aceitar o acordo.”

Respondendo à questão de um analista, a administração da CCR reafirmou que a investigação interna criada no ano passado não apresentou novos fatos que justificassem novos acordos.

Ainda sobre isso, os advogados disseram que o acordo do Paraná deve ser homologado pela 5ª Câmara do MPF na quinta-feira e que a homologação do termo de São Paulo está próxima de ocorrer.

Questionados sobre eventuais benefícios que os acionistas da CCR tiveram com os malfeitos, os advogados disseram não houve “benefícios externos” à companhia e que, mesmo dentro da companhia, ainda “é duvidosa” a existência de benefícios. Ele admitiu, no entanto, que tais benefícios foram considerados pelas autoridades suficientes para a assinatura de acordos.