Ibovespa opera em alta com destaque para siderúrgicas; dólar recua

Por Ana Carolina Neira e Marcelo Osakabe | Valor

SÃO PAULO  –  O Ibovespa operou em alta durante toda a manhã de hoje. Às 14h, o índice subia 0,88%, aos 98.321 pontos. O bom momento reflete a expectativa dos investidores com o andamento da agenda econômica e também o bom humor nos mercados globais. A valorização do setor de siderurgia e da Vale também colaboram com o cenário.

No exterior, o alívio das tensões comerciais dos Estados Unidos com a China e o México estimulam a busca por ativos de risco pelos investidores. O presidente americano, Donald Trump, adiou por tempo indeterminado a taxação dos produtos mexicanos.

Também exerce forte peso sob o mercado a notícia de que a China prevê estímulos para sua economia, permitindo a utilização de recursos de títulos especiais para projetos de investimento como estradas, oferta de gás e energia e ferrovias.

O anúncio fez aumentar o preço do minério de ferro, que subiu 5% no porto de Qingdao nesta manhã. Além disso, a autoridade de comércio exterior da China anunciou que as importações da commodity subiram em maio ante abril, enquanto os estoques nos portos chineses caíram para os níveis mais baixos desde fevereiro de 2017. Esses fatores impulsionaram as altas das ações ligadas à siderurgia e mineração: CSN ON (5,34%); Gerdau PN (2,83%); Usiminas PN (2,30%) e Vale ON (4,90%).

O noticiário político ainda impõe alguma cautela ao mercado, que aguarda os desdobramentos do caso do vazamento de mensagens trocadas pelo ministro da Justiça, Sérgio Moro. 

Apesar do ruído político causado pela divulgação das conversas, o mercado encontra ânimo nas tramitações no Congresso. O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), usou o Twitter para dizer que atuará para “blindar a Câmara de qualquer coisa”, enquanto partidos da oposição e o PSL defendem uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar a atuação de Moro enquanto juiz.

Já o governo segue buscando um acordo na Comissão Mista de Orçamento (CMO) para votar hoje o projeto que libera crédito extra de R$ 248,9 bilhões ao Executivo para pagamento de despesas, ação necessária para que o governo não descumpra a regra de ouro. A líder do governo no Congresso, a deputada Joice Hasselmann (PSL-SP) e o relator, o deputado Hildo Rocha (MDB-MA), tentam costurar um acordo pelo processo.

E ficou convocada para a próxima quinta-feira, às 9h30, a apresentação do parecer do deputado Samuel Moreira (PSDB-SP) sobre a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) proposta pelo governo para a reforma da Previdência.

De acordo com Vinicius Andrade, analista da Toro Investimentos, o mercado entendeu que as polêmicas envolvendo Sérgio Moro não devem trazer atraso à agenda econômica, inclusive porque o Congresso trabalha para seu encaminhamento. “O que aconteceu com o Moro chama a atenção, claro, mas hoje temos diversos exemplos do andamento da agenda com destaque para a Previdência. Isso equilibra o mercado e explica o otimismo dos investidores”, afirma.

Hoje, a Petrobras também é destaque após o anúncio de recebimento de cerca de R$ 265 milhões em decorrência do acordo de leniência da Braskem firmado com a Controladoria-Geral da União (CGU) e Advocacia Geral da União (AGU).

Nesta tarde, o tribunal do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) julgará a proposta de Termo de Compromisso de Cessação (TCC) de conduto proposto pela estatal referente a inquérito que apura eventuais abusos de posição dominante praticadas pela Petrobras no mercado de refino de petróleo no Brasil, o que deve manter a companhia no radar dos investidores. Petrobras ON subia 0,92% e Petrobras PN avançava 0,68%.

Entre os destaque negativos do Ibovespa estão Gol PN (-2,75%) e Sabesp ON (-2,45%), que bateu cotações bastante altas na semana passada em meio ao andamento do Projeto de Lei (PL) que atualiza o marco regulatório do saneamento.

Dólar

O clima positivo nos mercados internacionais dá impulso ao apetite por ativos de risco neste pregão, levando, no Brasil, o dólar a voltar a operar ao redor de R$ 3,85. Apesar do sinal, investidores locais mantém suas atenções voltadas à Brasília, onde várias decisões importantes podem ser tomadas ainda hoje.

Por volta das 14h, a moeda americana recuava 0,83%, aos R$ 3,8515. 

Para Luiz Carlos Baldan, diretor da Fourtrade Corretora, o comportamento do mercado neste pregão deve espelhar o de ontem, ou seja, replicar o sinal vindo de fora à espera de novidades da política doméstica. “No exterior, os focos de preocupação estão relativamente controlados”, nota, fazendo referência às disputas comerciais entre Estados Unidos, China e México.

A agenda do dia em Brasília traz vários ítens que devem mexer com o humor dos mercados. Iniciada esta manhã, a reunião de governadores sobre inclusão dos Estados e municípios dentro do texto da reforma da Previdência ainda não chegou a uma conclusão. Pouco antes do horário do almoço, as divergências entre os presentes fizeram com que os assessores pessoais foram retirados da reunião.

Em paralelo, tem a análise da abertura de crédito suplementar ao Executivo.

Separadamente, há expectativa com a sessão do STF que vai julgar um pedido de liberdade feito pela defesa do ex-presidente Lula, cujos processos teriam sido comentados por Sergio Moro e o procurador Deltan Dallagnol em supostos diálogos expostos pelo site “The Intercept”. Além do habeas corpus, a Corte confirmou o julgamento de outro habeas corpus, este referente ao pedido de suspeição de Moro, para o dia 25.

A possibilidade de o ex-presidente Lula receber liberdade preocupa parcela dos integrantes do mercado financeiro. Na visão de um profissional que preferiu não ser identificado, o temor é que um Lula livre inflame a oposição e dificulte a tramitação das reformas atualmente em discussão.

(Ana Carolina Neira e Marcelo Osakabe | Valor)