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O Brasil fez, na economia, o que era difícil; falta o mais simples

O Estado de S.Paulo – SP   21/10/2026

O gasto público elevado é o mais simples dos três desafios estruturais da economia brasileira e o que ainda persiste; sua superação exige decisão e disciplina

Desde a Independência, a economia brasileira enfrentou três grandes desafios: a dívida externa, a inflação e o gasto público. A dívida nasceu quase com o País, pois o primeiro empréstimo foi contraído para pagar uma indenização a Portugal. Seguiram-se muitos outros. Até que a conta explodiu na década de 1970, com os choques do petróleo e a alta dos juros americanos.

Essa era a questão de solução mais complexa. O País importava bens de capital, insumos industriais, alimentos e, especialmente, petróleo. Por falta de dólares, o Brasil quebrou duas vezes na década de 1980. Só regularizou a situação com os credores em 1994.

O déficit comercial foi superado pelo resultado de três movimentos estruturais que levaram décadas para amadurecer: a abertura das rotas de exportação de minério de ferro para a Ásia, a revolução que transformou o País em potência agrícola e em grande exportador de alimentos e o desenvolvimento de uma indústria de petróleo exuberante, uma das maiores do mundo.

O déficit em conta corrente melhorou. Foram acumuladas reservas acima de US$ 350 bilhões. O real se fortaleceu. O preço dos alimentos, a inflação e a taxa de juros foram contidos. O brasileiro ficou mais próspero.

Quando o crédito externo rareava, a inflação era o mecanismo de ajuste. A alta dos preços foi um desafio em alguns momentos do século 19, mas se tornou persistente a partir dos anos 40.

A causa era o financiamento do déficit através de emissão monetária, processo agravado pela adoção da indexação. Depois de resistir a planos heterodoxos, a inflação elevada foi superada em 1994.

O desequilíbrio fiscal também vem de longa data, mas só se converteu no desafio central da economia depois que o Plano Real eliminou a inflação crônica e o acúmulo de reservas superou a questão da dívida externa.

O excesso de gastos aumenta a dívida interna e o seu custo e limita o crescimento. Gerar superávit primário e impedir que a dívida cresça não exige décadas de transformação do tecido produtivo. É um obstáculo que tem receita conhecida.

O País foi capaz de resolver problemas difíceis. O gasto público elevado é o mais simples dos três desafios estruturais da economia brasileira e o que ainda persiste. Sua superação exige decisão e disciplina. E, por isso, a conclusão é desconcertante: a falta de vontade política é o que tem impedido a sua solução. A sociedade vem cumprindo o seu papel. Resta eleger governantes que façam a sua parte

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